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20.05.21

Antes do seu documentário na BBC Three, Leigh-Anne da Little Mix fala sobre ser a única garota negra no grupo e sobre o racismo no Reino Unido.

Na última turnê, lembro-me de sair do palco e chorar na maioria das noites…e ficar tipo, ‘Por que me sinto assim? Por que sinto que ninguém gosta de mim? É como se eu não estivesse no palco.‘”

Leigh-Anne Pinnock da Little Mix tem gravado um documentário há mais de um ano sobre sua experiência como a única integrante negra do grupo britânico. No documentário, ela fala para outras pessoas – incluindo outros músicos – sobre o racismo na indústria da música. Conversei com ela em um estúdio silencioso no leste de Londres.

A falta de diversidade é vergonhosa“, diz a cantora de Shout Out to My Ex sobre a indústria da mídia em geral, antes de seu documentário Leigh-Anne: Race, Pop & Power, da BBC Three.

Então, acho que se posso… ser uma aliada, então é isso que eu serei.

Todos nós sabemos que o racismo é uma questão terrível e massiva neste país e eu realmente queria me aprofundar nisso. Foi importante para alguém como eu fazer algo assim [porque] eu tenho uma base de fãs predominantemente branca e as pessoas que sinto que poderia alcançar fazendo este documentário são enormes. Por que não me colocar nessa posição lá fora e fazer esse tipo de coisa?

Embora o racismo seja o assunto do documentário, Leigh-Anne também toca no colorismo – quando uma pessoa negra de pele mais clara é privilegiada a uma pessoa negra retinta devido à tonalidade de sua pele.

Leigh-Anne conta:

Eu queria usar minha voz para falar sobre o colorismo porque eu estou muito ciente de como isso é horrível e é apenas algo que precisa ser falado.

Eu conheço meu privilégio e o abordo isso no documentário. O que abordo é que sei que se minha pele fosse uns tons mais escuros, eu não estaria na banda, é a verdade. Sabemos que não há mulheres negras retintas o suficiente sendo representadas, então isso era algo que eu realmente sentia que eu precisava falar.”

Ela acrescenta:

Eu queria falar sobre minhas experiências e como me senti na banda, sendo a garota negra no grupo e as pessoas me identificando como a garota negra. Eu realmente queria explorar essa parte por que me sentia tão esquecida, tão ofuscada e foi por causa da minha cor. Mas também, eu queria poder ouvir outras mulheres negras sobre suas experiências.”

No documentário, Leigh-Anne fala com estrelas pop britânicas negras, incluindo Keisha Buchanan do Sugababes, a ex-concorrente do X Factor Alexandra Burke e as cantoras e compositoras Raye e NAO.

Alexandra se lembrou de quando lhe disseram que era “muito escura para estar na indústria“.

Disseram a ela: “Você precisa clarear a pele porque não vai vender nenhum disco. É isso que às vezes me faz sentir que não quero estar nesta indústria”, diz ela. “Eles tiraram tanto minha confiança que eu não poderia ser eu mesma.

NAO falou sobre as pessoas não saberem que o racismo acontece de várias maneiras. Ela diz no documentário: “As pessoas não percebem que possuem pensamentos racistas. Elas foram ensinadas a dizer: Preto não é bonito.”

No documentário, Leigh-Anne começa a ouvir as experiências delas.

Foi o momento mais impressionante do documentário”, diz Leigh-Anne. “Ser capaz de estar em uma sala com essas mulheres incríveis que passaram por coisas tão devastadoras por causa da raça.

Foi inspirador ouvir elas desabafando e me inspirou a me abrir mais e apagou aquela sensação de não estar sozinha nisso. Foi interessante também porque todas nós tivemos experiências tão diferentes. Eu realmente pensei que teria experiências semelhantes a Keisha por ela também ter sido a única garota negra em seu grupo, mas a dela era completamente diferente da minha.”

Enquanto a conversa acontecia entre os cantoras pop, Keisha explicou a Leigh-Anne que “quanto mais bi-racial você parecer, mais tolerável você será para o público, mais você se parecerá branco“.

EU ME IDENTIFICO COMO NEGRA”

Outro momento importante do documentário é quando Leigh-Anne, pela primeira vez, se abre sobre a identificação como negra.

Isso é uma coisa muito pessoal, não é? Algo simples como: você se identifica com o quê?’”, diz ela.

Eu me identifico como negra. Tenho dois pais bi-raciais”, revela ela, acrescentando que foi criada em uma família caribenha como seus pais.

Por isso, sempre me identifiquei como negra enquanto crescia. Eu sinto que fui identificada como negra aos olhos do público também. O público me chamava de ‘garota negra’ da Little Mix e era isso que eu era, mas é uma coisa muito pessoal de se dizer.”

Acho que é difícil para mim responder a essa pergunta porque fico com medo de ofender as pessoas por eu ser uma pessoa bi-racial [dizendo] que eu me identifico como negra, porque sei o quão ruim é o colorismo e como as pessoas de pele escura não são representadas o suficiente na mídia.”

Eu entendo a frustração de eu dizer que me identifico como negra quando sou evidentemente mais clara.

No documentário, Leigh-Anne também fala com seu noivo, o jogador de futebol Andre Gray, sobre seus tweets anteriores. Depois que Leigh-Anne o questiona sobre por que escreveu os tweets, ele diz no documentário:

Isso é o que acontece quando você é ingênuo, você se torna um produto do seu ambiente. Portanto, o que quer que esteja por perto todos os dias – e você não educado sobre isso ou exposto porque está errado – então meio que se pega.”

Não há desculpa para isso. Quando tudo saiu, eu fiquei constrangido, envergonhado, desapontado, mas ao mesmo tempo eu tinha que ser um homem e assumir meus erros.”

Eu cometi esse erro, aprendi e me eduquei e cresci para entender o quão ofensivo e errado era o que eu postava.”

Esses tweets foram incrivelmente ofensivos e para eu fazer um documentário abordando o colorismo, eu tinha que falar sobre isso e Andre precisava falar sobre isso“, acrescenta Leigh-Anne.

“EU VOU CONTINUAR ATÉ VER UMA MUDANÇA”

Em 2019, quando o documentário foi anunciado com o título provisório “Colourism and Race”, Leigh-Anne enfrentou muitas reações negativas das pessoas nas redes sociais, com pessoas a questionando se, por ser uma mulher negra de pele clara, ela era a pessoa certa para gravar um documentário sobre colorismo.

Um tweet disse: “Leigh Anne tem a pele muito clara. Ela é racializada, mas por que ela está apresentando um documentário sobre colorismo? A menos que ela esteja em uma jornada para aprender sobre como isso a beneficia?”

Outro disse: “Se Leigh-Anne não destacar o fato de que o colorismo afeta mais as mulheres negras de pele mais escura, ela nem precisa lançar esse documentário.

Em resposta a essas críticas, Leigh-Anne explica:

“Eu meio que gostaria que não tivéssemos usado esse maldito título provisório agora. Eu queria amplificar suas vozes e falar sobre colorismo. Eu queria falar sobre racismo também, mas sabia que o colorismo é um assunto tão grande que definitivamente não é falado o suficiente. Eu queria trazê-lo à luz e falar sobre ele em uma mídia mais aberta.

Ouvir os comentários foi muito doloroso porque comecei a me questionar, tipo, ‘Eu sou a pessoa certa para fazer isso? Eu assumi o lugar de outra pessoa?’ Foi definitivamente difícil ver esses comentários e me machucou mais vindo da comunidade negra questionando se eu era a pessoa certa para isso.”

Depois de me questionar, pensei: ‘Não’, porque eu também estou falando sobre as minhas experiências e prefiro usar minha plataforma para alcançar milhões de pessoas do que não fazer nada.”

No filme, Leigh-Anne pode ser vista marchando em alguns dos protestos Black Lives Matter do ano passado e ela explica como pretende continuar fazendo campanha contra o racismo, inclusive na indústria da música. De acordo com o órgão comercial da UK Music, houve um aumento significativo no número de funcionários negros, asiáticos e de minorias étnicas na indústria da música desde 2016 – mas essa representação é pior em cargos executivos com salários mais altos.

Decidimos criar o Black Fund basicamente para criar e fazer um pote de dinheiro para doar a instituições de caridade negras e ajudar a comunidade negra”, diz ela.

Vou continuar até ver essa mudança!” afirma a cantora-compositora.

Os negros devem se sentir abertos e devem se sentir livres para entrar em seu local de trabalho, e se você não achar que é diversificado o suficiente ou se houver um problema e você não sentir que é tratado com justiça por causa da cor de sua pele, você deve ser capaz de dizer isso e não ter medo ou ser ignorado.”

Você não pode simplesmente pegar pedaços da cultura e não dar oportunidades aos negros. Eu quero ver mais diversidade e quero ver as pessoas ativamente fazendo uma mudança e não apenas falando sobre isso.

“AGORA EU POSSO ME SENTIR CONFIANTE”

No início desta jornada, eu definitivamente não tinha tanta confiança quanto eu tenho agora”, diz Leigh-Anne, ficando visivelmente mais relaxada ao longo de nossa conversa.

Eu sinto que eu não acreditava em mim o suficiente e isso é devido a todos aqueles anos me sentindo tão esquecida e me sentindo como a invisível.

Mas eu acho que agora, falar e contar ao mundo sobre as minhas experiências e ouvir outras pessoas se relacionarem comigo e ouvir as histórias de outras pessoas, ajudou. Até mesmo garotas de outras bandas femininas – Normani (Fifth Harmony) me procurou quando lancei meu vídeo sobre minhas experiências e ela me fez sentir como se eu não estivesse sozinha.

Agora posso mostrar o meu poder e posso me sentir confiante. Eu desperdicei muito tempo sem me sentir assim e ficando ansiosa antes dos shows e dos encontros com fãs e pensando que eu não teria o mesmo retorno que as [outras] garotas.

Por fim, ela diz:

Gostaria de não ter perdido tanto tempo me preocupando com isso e apenas ter dominado isso, mas sabe de uma coisa? Todos nós aprendemos e todos nós seguimos nossas próprias jornadas.’

Ainda estou aprendendo. Estamos todos aprendendo. Vamos cair, levantar e aprender mais e mais.

Confira a entrevista completa legendada pela equipe BRASILLM:

Tradução & Adaptação: EquipeBRLM | Fonte: BBC

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